terça-feira, 4 de outubro de 2011

QUANDO AS EXISTÊNCIAS SE ENTRELAÇAM

Sábado de Sol num setembro negro. Lancei sobre meu corpo vestes despojadas: uma saia longa preta, rasteira dourada, uma rosa vermelha ao peito.
Meu momento “Rita Baiana” com Fe Moraes de “Aluísio de Azevedo”, Céia de “das Dores” e o Mercado Público: nosso “Cortiço”.
Quando estava à vontade com minha personagem e o gingado de seu caminhar, Joel nos reconheceu e nossas histórias se entrecruzaram.


Joel com seu largo sorriso abriu minha trouxinha de fina cambraia, desdobrando paninhos engomados de lembranças. Fomos desatando laços de nossas vidas passadas. E passando em revista nossa memória partilhada.


Minha lembrança mais nítida era a mais antiga, vinda do bairro da Barra do Rio – o lugar mais distante do Centro em que morei – nos tempos de meus 13 anos: um disco de vinil de Cindy Lauper (emprestado), notas bailarinas envolventes do Tchaikowsky perdido, o sabor mentolado de meu primeiro beijo e os distantes meninos da “pelada”... Joel, molecote, no meio da rua com os primos.
Já Joel se atreveu a dar detalhes de meu transitar, como vizinho do tempo de uma juventude por mim esquecida, com o ex marido, segundo ele, “chato” e torneios de futebol.
Lembramos da vizinha que viveu na Itália, pessoas e amigos comuns. Lembramos dos tempos e de tantas vezes que esbarramos como conhecidos estranhos.
Eu lembrava Joel menino e ele de mim mulher. Nossos ponteiros se ajustaram, mas nunca marcarão o mesmo tempo, nem o mesmo gosto. Possivelmente a alegria do encontro no palco da vida e quem sabe, no compasso de uma dança.
Assim como no romance de Aluísio de Azevedo, sem poesia ou hipocrisia, nosso papo chegou à crítica ao Capitalismo Selvagem, o desejo de um futuro de Paz e Amor e na observação de que quando todas as existências se entrelaçam e repercutem umas nas outras, é preciso prestar atenção aos bordados e a magia de seus nós.


Itajaí, 03/10/2011.

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